Chuvas



Gosto da chuva... lembra notas musicais.
Umas caem.
Outras tocam.
Combinam, acompanham-se.
Gosto de sentí-las... Cada uma. Todas elas.
As duas são músicas: uma de gotas, outra de notas.
As duas são chuvas: uma de notas, outra de gotas.

Gosto das gotas de chuva e das notas musicais... lembram lágrimas.
Tristes ou alegres.
Conforme a chuva, ou conforme a música.
Umas quentes. Outras leves.
Gosto de sentí-las... quaisquer delas, mesmo alternadas num mesmo pranto.

As duas secam, como a chuva.
As duas acabam, como a música.

Gosto das gotas de chuva, das notas musicais e das lágrimas... Lembram carinhos. Rápidos ou permanentes.
Uns tanto. Outros tão pouco.
Gosto de sentí-los... Apesar das lágrimas de depois.
Todos permanecem, como a sensação das gotas sobre a pele.
Todos engrandecem, como as notas de um acorde final.

Gosto das gotas de chuva, das notas musicais, das lágrimas e dos carinhos.
Lembram pessoas sob a chuva. Abrigados da chuva. Fazendo música. Ouvindo música. Com os olhos cheios de lágrimas. Recebendo carinhos. Fazendo carinhos. Querendo carinhos.

Gosto de sabê-los...
Existindo.

Reconciliação



Cismei que ela tivesse me abandonado, essa bandida.
Sentia que me espiava de longe, entupida de palavras à espera de serem lavradas.
Até acenava, mas de tão insegura, incompleta, insignificante e incapaz, recuava.

Era uma pena.

Eu sabia que ela acabaria voltando. Nem que fosse no laço.
Sem ela eu sou só espaço. Sem recheio, sem razão.
Sem mim ela não vive, não come, não sente tesão.

Ela, é uma puta. Faz gozar, vai embora e espera o meu contato - como se não soubesse que é necessária sempre.
Ah, se soubesse da saudade que eu estava de mergulhar em seus seios, meter minha boca entre suas pernas e observá-la de quatro pra mim, aguardando ansiosa toda a minha fúria...

Bem... mas ela voltou. É isso que importa.
E mordendo, chupando, comendo e gozando estou. Mais completa, mais feliz, mais tarada, mais eu.
Tinha ciúmes de dividí-la com outros homens, mas percebi que sem eles ela não seria a mesma.

Que bom que está comigo de novo, Poesia.
Saudades de você, minha vadia.

Metamorfose


Não serei diferente amanhã do que sou hoje. Não mais do que tenho sido diferente após cada dia de vida esfregada em pedra e após cada noite de alma lavada em sonho.

Não serei nem menos, nem mais do que fiquei, depois de me descobrir capaz de voar sem asas e de pisar sobre as brasas que eu mesma acendi.

De plantar minhas próprias rosas, trocar cabelo, caneta, cheiro e desejo no câmbio negro. De apunhalar com carinho, recolher mão e vergonha, engolir três vezaes o coração, um pedaço de cada vez.

Não serei diferente amanhã do que sou hoje: absolutamente igual ao que acabei de ser, e esqueci!

Depois do primeiro Adeus...




A gente se olhará mais fundo
Que no fundo dos olhos.
Qualquer tipo de "como vai"
será o mais bonito dos carinhos.
Falaremos...
Muito mais com os olhos.
Encompridaremos qualquer assunto,
pros outros poderem falar mais.
Um de nós contará algo
engraçado
pra poder rir dos que nos ouvem
mas não escutam.
Roçaremos as mãos...
Sem querer, querendo
nos transpor de carinhos.
Nossos lábios se abrirão...
Em sorrisos
E trocaremos beijos através deles.
As perguntas, após o ponto de interrogação,
terão sempre, mil outras,
as verdadeiras.
Falaremos do tempo
Enquanto sentimos a temperatura
de nossos corpos.
O silêncio
será o melhor meio de comunicação.
Sairemos de nós mesmos,
para encostar a cabeça no ombro do outro,
descansando
de tanta vontade de nos buscar.
Tomaremos fôlego, a cada segundo,
prá dizer
que tudo isso está acontecendo mesmo.
E,
mais uma vez,
diremos "Adeus"
com a mesma entonação de quem quer dizer
"Fique comigo"!!!

Eles



Eles me descobriram!
Estão querendo minha morte...
E nem bem nasci ainda!

Estão se unindo.
armando-se.
preparando-se.

Por quê?
Que há de mau na minha existência?
Que terror lhes causo?
Que mal lhes faço?

Eles tem medo,
mas... de quê?
De mim não pode ser...
Deve ser deles mesmos.

Não quero morrer...
preciso me defender.
Mas, como?
Se nem armas iguais às deles tenho?
Se nem sei fugir...
Nem me esconder?

Eles vão agir rápido...
são muitos.

Tenho medo deles,
Tenho medo do medo deles
conseguir matar-me.

Quisera



Mais que um mundo de amor,
que uma vida de sonho,
uma doce poesia...
quisera por um momento
ter dor por amar,
viver e não sonhar,
fazer poesia para agredir profundamente...

Cada migalha minha esmigalhar ainda mais,
juntar os pedaços todos,
reter todos os momentos mais tristes,
reunir todas as solidões,
receber de novo todas as recusas...

Colocar tudo isso frente a um espelho.
Depois, olhar tudo, atentamente.
Parar em cada detalhe.
Analisar cada pequena coisa...
num bombardeio atômico de dor.
Aprender muito bem tudo...
como uma criança descobrindo o que há de feio no mundo
para, mais tarde, poder olhar o espelho...

como uma mulher se descobrindo...

Lei do Movimento




Às vezes somos acometidos por “estranhas paralisias”... Ficamos à frente da televisão por horas, mesmo que nada nos interesse; temos dificuldade de andar até o telefone, de apertar algumas teclas e de falar algumas palavras com nossos melhores amigos, paramos de ler qualquer coisa, talvez como esta, que nos convide a pensar nessas “estranhas paralisias”...
Uma paralisia leva à outra que leva à outra, numa teia infinda que precisa ser rompida, sob risco de permitir que essas “estranhas paralisias” tomem conta de nosso corpo, nossa mente, nosso coração. É preciso romper a teia!
Proponho pensarmos em adotar, em respeitar uma nova lei:
a “Lei do Movimento”.

Pescaria


Em caso de poemas presos
cada um tem sua receita,
um palpite, uma explicação.
O tratamento que vale hoje
já amanhã não funciona;
em alguns casos extremos,
o que hoje foi santo remédio,
amanhã infecciona.
Minha receita de agora
que tem rendido poesia,
é ficar só na campana,
com uma palavra na mão
que outras aparecem
para fazer o resgate.
E que farta pescaria
se oferece ao coração.

Estado


Ficar em estado
de coisas e seres
requer competência
de exagero
e de essência.
Pasmar em dimensões
das coisas e seres
requer transparência
e sutileza.
Ah, requer!
E de tudo isso
concluir sabedorias
de dentro e de fora
de gente,
requer profissionalismo
e ousadia
na arte do verso.
E na arte do certo.

Salve-se quem puder.com



Pela vitrine virtual
desfilam frustrações, esperanças,
falsidades e ilusões.
Rostos de sorrisos congelados,
perfis moldados
pela lógica do mercado.
Esconde-esconde
sem a dimensão da brincadeira.
Pega-pega
de regras obscuras,
quebra-cabeças
de sentimentos desencontrados.
Pessoas em tardia adolescência,
desesperados por um pouco de paixão,
pagando preços altos
por migalhas de companhia.
Tudo convenientemente
descartável e efêmero,
menos a solidão.

Para um alguém sem definição. Amante, amigo ou irmão.

Essa presença-ausente trazida pela vida mesmo, (não pela gente) me fez feliz por um instante: Agora.
Depois de uma palavra sua (escrita), senti a inspiração ou vontade (ou como queiram chamar) que eu precisava pra vir até essa caixinha escrever um pouquinho do que sinto.
Pensem o que quiserem os pobres de amor ou os que simplesmente têm a vontade escondida de fazer essa tentativa simples.
Sinto algo muito especial por vc. Um carinho estranho, mistura de irmão-amigo-amor-orgulho-energia... um "sei lá o que" que me faz sentir bem quando tenho a chance de me "espallhar" com vc e dizer coisas assim, sem sentido, sem nexo, sem um porquê.
Talvez Quintana, Pessoa ou Drummond já tenham escrito esse sentimento.. mas o Meu (sincero, non sense e cheio de carinho) desabafo, deixo aqui pra vc.
É lindo ver todo o seu jeito doce, ver seu olhar brilhante. Você é bom.
E 1024 insuficientes caracteres se vão.
Só espero um dia ser uma boa redatora, pra dizer em uma só frase tudo que tá dentro do meu coração.

A primeira folha guardada

Minha velha gaveta anda fechada. Se abrir, transbordará de coisas antigas, papéis mal escritos, recordações bobas, extratos, cartas, bilhetes bandidos e amigos, bics ressecadas, talvez ainda alguns papéis de carta manchados, uma agenda muito velha, fotos, alguma cifra mal tocada, alguns textos lidos e relidos e grifados e carcomidos... enfim... coisas cheias de sentido algum pra quem não as segurou e viveu com elas momentos.
Será que é esse o objetivo desse blog egoísta?! Lido só por mim, escrito só por mim, comentado só por mim e conhecido só por mim?!
Guardar coisas que façam sentido só pra mim?!
Porque assim como a minha velha gaveta, aquela que fica no meu quarto, esse blog nada mais é do que uma gaveta bagunçada. A minha gaveta bagunçada. A segunda.
Bem... fica aqui a primeira folha guardada.